O CRENTE E A TEOLOGIA BÍBLICA DO PERDÃO

Atualizado: 1 de Jun de 2019

Texto Bíblico:

Ora, se teu irmão pecar, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, terás ganho teu irmão; mas se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda palavra seja confirmada. Se recusar ouvi-los, dize-o à igreja; e, se também recusar ouvir a igreja, considera-o como gentio e publicano. Em verdade vos digo: Tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu; e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu. Ainda vos digo mais: Se dois de vós na terra concordarem acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus. Pois onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles. Então Pedro, aproximando-se dele, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu hei de perdoar? Até sete? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete; mas até setenta vezes sete. Por isso o reino dos céus é comparado a um rei que quis tomar contas a seus servos; e, tendo começado a tomá-las, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos; mas não tendo ele com que pagar, ordenou seu senhor que fossem vendidos, ele, sua mulher, seus filhos, e tudo o que tinha, e que se pagasse a dívida. Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, tem paciência comigo, que tudo te pagarei. O senhor daquele servo, pois, movido de compaixão, soltou-o, e perdoou-lhe a dívida. Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem denários; e, segurando-o, o sufocava, dizendo: Paga o que me deves. Então o seu companheiro, caindo-lhe aos pés, rogava-lhe, dizendo: Tem paciência comigo, que te pagarei. Ele, porém, não quis; antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida. Vendo, pois, os seus conservos o que acontecera, contristaram-se grandemente, e foram revelar tudo isso ao seu senhor. Então o seu senhor, chamando-o á sua presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste; não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, assim como eu tive compaixão de ti? E, indignado, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim vos fará meu Pai celestial, se de coração não perdoardes, cada um a seu irmão (Mateus 18:15-35).


INTRODUÇÃO


O texto supracitado é dividido basicamente em duas partes principais, mas ambas inter-relacionadas: O ensino de Jesus a respeito do pecado contra Deus e como os seus ministros devem agir com relação a ofensa e ao ofensor (Mt 18.15-20), e sobre a doutrina do perdão, sobre como devemos proceder com relação aqueles que nos ofendem (Mt 18.20-35).

O decálogo “dez mandamentos”, classifica os pecados em duas classes principais: pecados contra Deus, “do primeiro ao quarto mandamento”, (Ex 20.1-11), e, pecados contra o próximo “do quinto ao decimo mandamento” (Ex 20.12-23). Contudo, todos, de alguma forma, constituem pecados contra Deus e, portanto, passiveis de juízo.




NA LEI MOSAICA


Na lei de Moisés, “torá”, (que corresponde aos cinco primeiros livros do Antigo Testamento), podemos perceber distintamente a diferença entre pecados contra Deus e pecados contra o próximo. A lei mosaica surgiu a partir dos princípios básicos encontrados no decálogo, e este é considerado uma síntese daquela. Jesus sintetizou toda a lei de Moisés em apenas dois princípios básicos: “amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo” (Mt 22.37.40). Isso porque toda a punição da lei mosaica era estabelecida com base em pecados cometidos primeiramente contra Deus, segundo contra o próximo. Se amamos a Deus e se amamos o próximo, não pode haver lugar para qualquer tipo de transgressão. A ideia de uma síntese não é de abstração, ab-rogação, mas de condensação.


PECADOS CONTRA DEUS E PECADOS CONTRA O PRÓXIMO


A diferença dos pecados praticados diretamente contra Deus e dos pecados praticados contra o próximo é que nesse último caso, o perdão divino está condicionado a uma retratação direta do ofensor para com o ofendido ou do ofendido para com o ofensor. Quando pecamos contra o nosso próximo, pecamos também contra Deus, e o perdão, nesse caso, está condicionado a uma retratação direta entre o ambos.


A EXPRESSÃO “CONTRA TI”


Algumas traduções omitem o complemento “contra ti” ao final da frase “se teu irmão pecar...” (v 15). Segundo alguns estudiosos a expressão “contra ti” deve ser rejeitada, pois o pecado referido aqui trata-se de uma falta grave pública que justifica a medida final, e não de uma falta contra um indivíduo, que é o que pode ser deduzido a partir do acréscimo “contra ti”.

Se omitirmos o acréscimo “contra ti”, temos aqui um procedimento básico de como a Igreja deve proceder mediante a falta de um de seus membros. Podemos ver nas palavras de Jesus uma forte evidencia para a disciplina na Igreja. A expressão “considera como publicano e pecador” sugere a excomunhão.

Se considerarmos o acréscimo “contra ti”, então temos diante de nós uma formula básica de todo o caminho que o ofensor/ofendido deve percorrer afim de poder reparar sua culpa contra o seu irmão.

Iremos concentrar nossos esforços no tema sobre o perdão, depreendidos a partir da parábola proferida por Jesus sobre o “Mordomo Incompassivo”.

A parábola foi implementada por Jesus mediante a indagação de Pedro “[...] Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu hei de perdoar? Até sete? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete; mas até setenta vezes sete”.


O REI E O SERVO DEVEDOR


O rei que propôs o acerto de contas com o seus servos representa o próprio Deus; os servos “mordomos” inadimplentes que prestaram contas ao rei, representam de um modo geral os pecadores. O valor proposto da inadimplência do primeiro servo, (10 mil talentos) é um valor intencionalmente exagerado, e simboliza o preço da redenção da alma humana, que não pode jamais ser pago com base na justiça própria ou mediante os esforços deste.

O talento era uma medida de peso, cuja correspondência em nossa medida é de aproximadamente trinta e cinco quilos (35 k). O talento poderia ser de ouro, de prata ou de qualquer outro metal nobre, mas era mais comum o talento de ouro e de prata. Um quilo (1 k) corresponde a mil gramas (1000 g). Considerando o talento como um talento de ouro, então temos a seguinte proposição (1 talento 35k – 35k X 1000g = 35.000g – 35.000g X 10.000 talentos = 350.000.000). O valor do grama de ouro em moeda brasileira atualmente (real), varia entre 120,00 e 150,00. Somando com base no valor mínimo teríamos 35.000.000 X 120,00 = 42.000.000.000,00 (quarenta e dois bilhões de reais). Isso em termos brutos supera a receita anual de qualquer bilionário na atualidade.

Em termos objetivos ninguém é capaz de contrair tamanha dívida na condição de servo. O valor excessivo aponta para algo, incomensurável, incalculável, que procura avaliar em termos espirituais o preço da redenção da alma humana.

A dívida do pecador contra Deus é impagável, pelo fato de nenhum homem ser capaz de oferecer o preço de resgate exigido pelo o próprio Deus. O preço do resgate da alma humana é o preço de sangue, mas não de um sangue qualquer, mas do sangue do próprio Filho Deus, que a si mesmo se doou em prol dos pecados da humanidade:

“Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” (1 Pedro 1:18,19).

O sangue dos animais, aceito provisoriamente como propiciação dos pecados do homem era ineficaz para purificar o próprio homem da consciência do pecado, isso é, livrar o homem de vez do poder do pecado. O pecado cometido era perdoado mediante o sacrifício do animal, mas não era capaz de evitar que o homem voltasse a pecar. Somente o Sangue de Jesus foi plenamente eficaz:

“Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção. Porque, se o sangue dos touros e bodes, e a cinza de uma novilha esparzida sobre os imundos, os santifica, quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo? (Hebreus 9:12-14).

Na parábola, o rei determinou que o servo devedor fosse vendido, ele, sua esposa, seus filhos e todos os seus bens, como uma forma de compensar um pouco aquela tamanha dívida, o servo no entanto, se humilhando perante o seu senhor pediu clemencia e piedade, “Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, tem paciência comigo, que tudo te pagarei. O senhor daquele servo, pois, movido de compaixão, soltou-o, e perdoou-lhe a dívida (Mt 26.27). O rei tinha consciência que a dívida não poderia ser paga jamais, mesmo que o servo, sua família e seus bens fossem vendidos. Ele tinha consciência que o seu servo, mesmo com todo o tempo e oportunidade jamais conseguiria sanar tamanha dívida. E por isso, movido por um sentimento de compaixão decidiu perdoar-lhe a dívida.

O homem pecador, com base em seus próprios méritos, jamais poderá satisfazer a exigência da justiça divina. O homem não pode pagar o preço do seu resgate espiritual. A redenção nos é facultada mediante a fé em Cristo Jesus (Ef 2.8).



O SERVO ABSORVIDO E O CONSERVO DEVEDOR


“Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem denários; e, segurando-o, o sufocava, dizendo: Paga o que me deves. Então o seu companheiro, caindo-lhe aos pés, rogava-lhe, dizendo: Tem paciência comigo, que te pagarei. Ele, porém, não quis; antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida” (Mt 18.28-30).

O servo perdoado pelo rei torna-se um tipo do salvo em Cristo, cujos pecados foram perdoados, cancelando toda dívida (Rm 8.1). Contudo, o perdão pleno de Deus ainda ficará condicionado ao cumprimento constante deste quesito “o perdão do próximo” (Mt 6.14,15).

O servo perdoado não seguiu o mesmo exemplo de seu Senhor, ao encontrar um de seus conservos, que lhe devia apenas 100 denários, “segurando-o, o sufocava, dizendo: Paga o que me deves”. Esta atitude estaria justificada com base no senso comum de justiça, que evidentemente obriga os devedores a pagar o que devem, mas não se justificaria com base na perspectiva da compaixão e misericórdias a ele manifestadas pelo seu senhor. O seu senhor lhe havia perdoado uma dívida impagável (RS 42.000.000.000,00?), mas ele não estava disposto a perdoar cem denários de seu conservo (6.000,00).

O denário era uma moeda romana que correspondia a uma diária de um trabalhador braçal (cerca de 60,00), 100 denários corresponderia a cerca de (6.000,00) em moeda brasileira o que é insignificante diante de 42.000.000.000,00, que ele devia a seu senhor e que lhe foi perdoado.

Estes valores tão desproporcionais em termos de quantidade, ilustra a verdade bíblica a respeito do pecado humano diante de Deus e das faltas entre irmãos. Nossa dívida para com Deus era impagável mas Deus, por intermédio de Cristo nos perdoou, agora, na condição de servos perdoados, ele espera que perdoemos aqueles que nos ofendem. As faltas entre irmãos é tão insignificante quanto 100 denários em relação aos 10.000 talentos de ouro, representando nossa dívida para com Deus.

O servo perdoado não seguiu o exemplo de seu senhor, e a consequência foi desastrosa, antiga dívida foi ressuscitada e requerida, e como forma de compensar tamanho prejuízo, foi entregue aos torturadores até que pagasse a dívida (v 33). Isso equivale a pena de morte.


CONCLUSÃO


A ação do rei diante da impiedade do seu servo, ilustra a verdade de que Deus continuará manifestando sua misericórdia e perdão somente quando o crente também o fizer para com o seu irmão (v 35). “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas (Mateus 6:14,15). O perdão divino na vida do crente sempre estará condicionado ao seu perdão para com o próximo.

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