CURSO LIDERANÇA/LIÇÃO 4 – O PROBLEMA DAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS

Atualizado: Out 13

INTRODUÇÃO

Vivemos atualmente um período crítico nas relações humanas. Isso se manifesta como uma consequência da nossa era pós-moderna onde vivemos um constante processo de globalização, de consumo compulsivo, da busca obsessiva por fama, poder, sucesso, status social, e do competitivismo de um modo geral. No entanto, podemos ligar essa problemática a dois fatores principais, que constitui a essência dos problemas nas relações humanas, o egoísmo e o egocentrismo, e ambos estão intimamente ligados. A nossa sociedade vem se tornando cada dia mais egoísta e egocêntrica.


1. AS RELAÇÕES HUMANAS

A vida em sociedade é uma característica inerente da nossa espécie o homo sapiens, e constitui ao mesmo tempo uma necessidade vital para ele. Por esse motivo a espécie humana não se classifica apenas como uma espécie que vive em sociedade, mas como uma espécie que é fruto do social e vive em detrimento dela e para ela.

A vida em sociedade é constituída de relacionamentos, que se manifestam em formas e graus diversificados. Quando falamos em relacionamentos estamos igualmente falando em tratamento, vivência, convivência e comportamento. As relações humanas possuem vários graus e dimensões, e em todas elas nos deparamos com certas dificuldades. Em suma, todos os graus e níveis de relacionamentos impõe certos desafios que precisam ser superados a cada dia para que os nossos relacionamentos simplesmente sejam possíveis. Diante desse desafio diurno, a palavra “tratamento” ganha uma ênfase especial.

As relações humanas são regidas por leis diversas que refletem de perto a nossa cultura e que são imprescindíveis nas mais variadas formas de relacionamentos. Para que a convivência seja possível é necessário que estas leis sejam obedecidas e praticadas. Em cada circunstância, ocasião e realidade distinta, faz-se necessário manifestarmos um comportamento distinto em nossas relações interpessoais, portanto, nas relações humanas devemos sempre nos perguntar “o quê, quem, como, onde”, porque no trato com as pessoas, nas diversas circunstâncias, ocasiões, situações, a ética das relações interpessoais exigirá um comportamento ou um tratamento específico.

As relações interpessoais têm um peso significativo e determinante na vida de um líder cristão. Por esse motivo devemos devotar toda a atenção para este aspecto tão importante de nossas vidas.


2. FORMAS OU ESPÉCIES DE RELACIONAMENTOS

Cada forma ou espécie de relacionamento impõe suas próprias formas de tratamento. Podemos citar como exemplo de relações humanas:

  • Relacionamento conjugal

  • Relacionamento entre pais e filhos

  • Relacionamento entre irmãos

  • Relacionamento entre nora e sogra, nora e sogro, genro e sogra, genro e sogro

  • Entre amigos do mesmo sexo

  • Entre amigos do sexo oposto

  • Entre colegas de escola, trabalho, outros

  • Entre colaborador e chefe

  • Entre irmãos de fé

  • Entre líder e liderado (dentre muitos outros exemplos)

Tudo em nossas vidas está interligado, portanto, não é somente a relação do líder com os seus liderados que vai definir seu sucesso, mas seu relacionamento com todos os que o cercam (família, amigos, colegas, trabalho etc.).


3. OS NÍVEIS DAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS

Os níveis das relações humanas são medidos ou depreendidos a partir da própria experiência pessoal, podendo, no entanto, também ser involuntária, inconsciente, isso é; alguém pode manifestar antipatia por uma pessoa em seu primeiro contato com ela, mesmo antes de qualquer interação. Neste caso trata-se de uma aversão involuntária.

Podemos inconscientemente levantar uma primeira imagem das pessoas baseado apenas nas primeiras impressões, seja de aceitação ou de aversão e antipatia. Estas questões estão intimamente ligadas ao aspecto afetivo e psicológico das pessoas, que nem sempre tem uma explicação lógica. Todavia, mesmo no inter-relacionamento, onde podemos conhecer algumas características e qualidades das pessoas com os quais nos relacionamos, é possível que a antipatia e a aversão perdurem sem qualquer explicação lógica.


3.1. NÍVEL DAS EMOÇÕES E DOS SENTIMENTOS

Apesar de usadas como sinônimos, as palavras “emoção e sentimento” têm significados distintos. Para entender, é importante ter o conhecimento de que uma emoção cria um sentimento. Por sua vez, este pode criar emoções e outros sentimentos. Basicamente, as emoções e os sentimentos estão estritamente relacionados. Isto porque, como uma emoção gera um sentimento, que por sua vez pode dar início a emoções, um ciclo psicológico está em constante desenvolvimento[1].

O nível das emoções e dos sentimentos é o mais baixo nível das relações humanas, visto pela perspectiva bíblica. Quando levamos nossas relações para o nível das emoções e sentimentos ficamos bastante limitados e de forma alguma podemos atender as expectativas bíblicas neste nível.

Quando falamos em sentimentos e emoções nas relações interpessoais nos reportamos para a tão conhecida lista dos sete pecados capitais:

  • a gula,

  • a avareza,

  • a luxúria,

  • a ira,

  • a inveja,

  • a preguiça e o

· orgulho.

Os sete pecados capitais não resumem todo o conceito de pecados contra Deus. Os pecados capitais são uma espécie de classificação dos pecados, formando assim uma ordem dos pecados contra Deus. Em síntese todo problema na questão das relações interpessoais tem sua origem nos pecados acima relacionados.

Analisando o sentimento de (tristeza) podemos notar com base nas Escrituras que ele pode se manifestar por diversos motivos e ser caracterizado diversamente dependendo do que o motiva:

  1. Caim matou Abel por inveja “decaiu o seu semblante” (Gn 4.6). A inveja faz com que as pessoas sintam profunda tristeza pelo sucesso de outrem ou por aquilo que a outra pessoa tem ou é. O sentimento de inveja levou os religiosos a crucificarem o Senhor Jesus (Mt 27.18; Mc 7.22; At 5.17)

  2. Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte (2 Coríntios 7:10).

  3. E livrou o justo Ló, enfadado da vida dissoluta dos homens abomináveis (Porque este justo, habitando entre eles, afligia todos os dias a sua alma justa, por isso via e ouvia sobre as suas obras injustas); (2ª Pedro 2:7,8).

O sentimento de inveja pode também ser a ponte para o -de muitas outras sentimentos e emoções tóxicos para alma como a ira, o ódio, o rancor, o menosprezo, antipatia, aversão, repulsa etc. (Tg 4.1,2).


3.2. NÍVEL DA RAZÃO OU DAS AFINIDADES

Este nível das relações se apoia na lei da proporcionalidade e da retribuição. Isso significa que nossas relações com as pessoas que nos cercam serão proporcionais ao que recebemos delas. Se somos respeitados, respeitamos, se somos tratados bem, então tratamos bem igualmente, contudo, quando o que recebemos é algo negativo, respondemos igualmente com uma atitude negativa.

Este nível das relações se apoia na lei da lógica, que racionalmente falando parece ser justíssima, mas não à luz das Escrituras Sagradas. Jesus disse: “...Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:44). “Bendizei os que vos maldizem, e orai pelos que vos caluniam (Lucas 6:28). Igualmente Paulo: “Abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis” (Romanos 12:14). “Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens” (Romanos 12:18). A luz das Escrituras as relações humanas se apoio em um princípio muito mais profundo e mais significativo, a lei do amor.


3.3. NÍVEL DA FRATERNIDADE

Este nível das relações traz consigo muitos aspectos positivos que refletem a lei do amor, contudo, ainda se manifesta deficiente por ser limitada e restrita. Devemos amar e respeitar nossos irmãos com base no amor fraterno ou amor entre irmãos, contudo, nosso amor, e nossas relações afáveis não devem jamais se limitar ao círculo dos irmãos de carne ou de fé, mas a todos. Muitos conseguem ser pacientes e ser tolerantes para com os irmãos da igreja, mas não conseguem ser tolerantes para com aqueles que estão lá fora, como os bêbados, os viciados, as prostitutas etc.

A lei do amor não se limita a um grupo específico, mas a todos, pois o amor ágape “amor de Deus” é atitude e não sentimento. Se não conseguimos amar os que estão perdidos, a veracidade daquilo que chamamos de amor poderá ser posta em dúvida.


3.4. NÍVEL DA FÉ

O nível da fé é o último e o mais elevado nível das relações interpessoais. Ele se apoia em um princípio nobre, “o amor de Deus”, e em uma causa maior “o Reino de Deus”. Se pelo prisma das limitações humanas as nossas relações sempre são limitadas e deficientes, quando cultivadas pelo prisma da fé, elas poderão ser infinitamente mais significativas, tanto para o praticante ativo “o crente”, como o passivo “aquele com quem nos relacionamos”.

As relações humanas no nível da fé têm como ponto de partida o “amor ágape” o amor de Deus (1 Co 13), cujas características constituem a base para o estabelecimento de relacionamentos cada vez mais duradouros e significativos, nos múltiplos aspectos das relações humanas. O líder cristão deve cultivar suas relações no nível da fé.


4. LEIS DO RELACIONAMENTO INTERPESSOAL


4.1. LEI DO PRINCÍPIO DA AUTORIDADE E DA SUBORDINAÇÃO

Nas relações humanas devemos sempre reconhecer o princípio da hierarquia e da subordinação. A lei da hierarquia e da subordinação trabalha em conjunto com a lei dá dignidade, que é estabelecida principalmente por força cultural, pela ética e pela moral. O tratamento devido às pessoas pode variar muito dependendo do contexto, das circunstâncias e das ocasiões. Podemos citar, por exemplo, alguém que tem um amigo que é magistrado. Se ela é convidada para participar de uma cessão no tribunal que seu amigo juiz preside, deve atribuir-lhe tratamento devido aos magistrados e não de um tratamento informal entre amigos. Em nosso convívio com as pessoas, estamos sempre expostos a situações e circunstâncias distintas que vai exigir de nós um tratamento diferenciado. Veja alguns exemplos bíblicos de subordinação:

1. Superiores, chefes (Ef 6.5; Cl 3.22) 2. Filhos aos pais (Cl 3.20) 3. Pastores (Hb 13.17) 4. Esposas aos maridos (Ef 5.26; Cl 3.18; Tt 2.5)


4.2. LEI DA APROXIMAÇÃO OU DO LIMITE

Os níveis das relações humanas são definidos justamente por causa da chamada lei da proximidade e do limite. Esta lei tem como ponto de partida o bom senso, que é o mecanismo delimitador das relações. Por exemplo: a maneira como dois amigos de sexo opostos se relaciona é diferente da forma como um casal se relaciona e assim vai.

Existe diferença entre carinho e carícias, um, “carinho” é o ponto delimitador da relação entre amigos, o outro “carícia” é a marca principal do relacionamento entre casais. Contudo, mesmo para os casados, existe a hora e o lugar adequado para acariciarem um ao outro.

O mesmo princípio se aplica a todas as formas de relacionamentos. Se estas questões simples não forem levadas em considerações, nossas relações podem ser prejudicadas, ou simplesmente se tornaram insustentáveis, tanto para as pessoas com quem nos relacionamos, como aos olhos daqueles que nos observam. Paulo nos recomenda: “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus” (1 Coríntios 10:32).


4.3. LEI DO RESPEITO MÚTUO E DO RECONHECIMENTO (1 TM 5.1-3)

O respeito é devido a todos e por todos. Ninguém está desobrigado de cumprir este princípio. Paulo recomenda aos romanos: “Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra” (Romanos 13:7). Nas relações humanas o princípio do respeito mútuo, da honra e do reconhecimento é imprescindível. A maneira como tratamos um amigo é diferente da forma como tratamos um idoso; a maneira como devemos tratar as pessoas diverge de pessoa para pessoa, e de contexto para contexto. Isso depende de como determinada pessoa se classifica em nosso círculo íntimo, pai, mãe, amigo, amigo, cunhada, cunhado, avô, avó, patrão etc.


4.4. LEI DA PERSPECTIVA, DO PONTO DE VISTA

Figura 1- fonte: https://www.agoravale.com.br/colunas/Sete-Vidas/ponto-de-vista


“Todo ponto de vista é a vista de um ponto” (Leonardo Boff). A famosa expressão de Leonardo Boff lança luz para a questão da perspectiva. O ser humano é único no palco da existência. Essa individualidade está refletida principalmente em sua composição biológica e psicoafetiva. As combinações do DNA de um indivíduo são únicas, bem como as combinações de suas digitais, o mesmo se aplica a sua composição psicoafetiva. Todos nós compreendemos e interpretamos o mundo a partir das lentes de nossa cultura, contudo, nossa cosmovisão é sempre única e individualista. Isso significa dizer que a maneira como os indivíduos interpretam o mundo é própria de cada indivíduo. A imagem abaixo pode ilustrar perfeitamente esta verdade:

Para entendermos as pessoas é necessário, às vezes, nos colocarmos no lugar delas. Este sentimento é geralmente chamado de “empatia”. A empatia é uma virtude muito rara na atualidade, onde as relações são muitas vezes cultivadas no nível mais baixo, incentivadas e mantidas por intenções puramente egoístas e egocêntricas.

Poucas pessoas conseguem desenvolver empatia pelos outros, pois estão sempre mais preocupadas consigo mesmas do que com o próximo. Procurar entender o porquê as pessoas, às vezes, têm atitudes tão estranhas, opiniões tão absurdas e tão divergentes podem acrescentar um fardo extra, que para muitos é desnecessário e pouco significativo.

A empatia é também chamada de compaixão. Jesus sabia demonstrar empatia e compaixão pelas pessoas que estavam a sua volta (Mc 8.12; 7.13). Jesus entendia as pessoas porque se colocava no lugar delas. Jesus mantinham uma relação perfeita com todos os grupos sociais de sua época, e a razão pela qual Jesus tinha facilidade em cultivar relacionamentos era que ele sempre cultivava as relações no nível máximo, o nível da fé, o nível do amor ágape “amor de Deus”, que é em sua natureza um amor sacrificial.


CONCLUSÃO

Tudo o que fazemos está intimamente ligado a pessoas. Elas exercem influência direta em nossas vidas que são vistas e sentidas a pequeno, médio e longo prazo. São as pessoas que nos promovem ou diminuem. Somos promovidos ou diminuídos com base na qualidade das relações que cultivamos com elas. Nosso sucesso ou fracasso em nossas relações interpessoais vai determinar nosso sucesso ou fracasso em todas as demais áreas de nossas vidas. Pense, reflita...trabalhe mais suas relações interpessoais. O homem é promovido para um outro nível na medida que consegue promover a qualidade de suas relações interpessoais.


[1] https://www.diferenca.com/emocao-e-sentimento/

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