ESTUDO 05 | ESMOLAS, ORAÇÃO E JEJUM | SÉRIE - SERMÃO DA MONTANHA

Atualizado: 2 de Jun de 2019


TEXTO BÍBLICO: (MT 6.1-18)

INTRODUÇÃO

Nessa cessão, que abrange os versículos (1-18), do capítulo 6 de Mateus, iremos estudar sobre as esmolas, oração e o jejum. A ordem em que os temas serão abordados, obedece a mesma ordem da abordagem de Jesus.

Ao abordar esses temas, Jesus condena a hipocrisia dos escribas e fariseus. Os escribas e fariseus quando davam esmolas, oravam e jejuavam, o faziam com a intenção de serem vistos pelos homens. O faziam para serrem vistos ou honrados pelos homens, e não porque eram homens piedosos. Sua piedade era meramente exterior, o que motivou Jesus a condenar veementemente suas ações.

Ao condenar os exageros ou hipocrisia dos judeus, Jesus, também nos ensina lições preciosas sobre estes temas, especialmente sobre a oração.

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As esmolas (Mt 6.1-4)

A esmola é uma expressão da caridade, quando de fato é feita de coração. Ajudar os pobres, é um princípio bíblico presente, em praticamente todos os livros da Bíblia.

Deus se apraz daqueles que ajudam os necessitados: Tiago, Pedro e João, líderes da Igreja em Jerusalém, recomendaram a Paulo que sempre lembrasse dos pobres, “o que também procurei fazer com diligência”, testificou ele mesmo (GL 2.10).

A lei de Moisés recomendava:

“Quando entre ti houver algum pobre, de teus irmãos, em alguma das tuas portas, na terra que o Senhor teu Deus te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás a tua mão a teu irmão que for pobre; ” (Dt 15.7).

Os escribas e fariseus, no entanto, o faziam movidos por outras intenções que não era a piedade, por isso Jesus os adverte: “Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus” (v 1).

A hipocrisia, é a marca distintiva do sistema religioso corrompido. Isso nos permite, também, avaliar e definir o sistema religioso dos dias atuais. Toda religião é exterior e hipócrita, o cristianismo em termos espirituais, não se classifica como religião. O cristianismo é uma pessoa “Cristo”. O segredo para nunca nos tornarmos um simples religioso é vivenciando a Cristo.

Quando fazemos qualquer ação de caridade, simplesmente para ser visto pelos homens, não somos merecedores de uma recompensa futura (v 1). A nossa recompensa já foi dada, no fato de as pessoas ter nos elogiado e aplaudido “Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão” (v 2b).

A expressão “não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”, significa fazer algo, sem a intenção de que alguém tome conhecimento daquilo. Existe nos dias atuais, aquelas pessoas, que quando ofertam na igreja ou fazem alguma obra de caridade exigem que seus nomes sejam mencionados em primeiro lugar da lista, e em alto e bom som. Para esses, eu digo “já recebestes o vosso galardão”.

Vamos garantir nossa justiça diante do Senhor, fazendo nossa caridade e contribuição sem intenção de ser reconhecido como tal, pois “...teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente) (v 4). Deus recompensará os humildes (Tg 4.10; 1 Pd 5.6).

A oração “E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão” (Mateus 6:5).

Como já dissemos, o sermão da Montanha, que abrange os capítulos 5-7 de Mateus, trata especificamente da ética do Reino. Quando Jesus subiu ao monte, uma grande multidão se ajuntou ali diante dele, para ouvir os seus ensinos. Mas, aquela multidão não era formada apenas dos discípulos, ou somente de pessoas que buscavam o Reino de Deus. Ali, também estavam os religiosos judeus “escribas e fariseus”, não para aprender sobre o Reino, mas como olheiros, observando cada palavra, gesto, ação de Jesus, procurando encontrar nele alguma falha ou falta.

O ensino de Jesus era para os súditos do Reino, mas Jesus também falava aos religiosos que ali estavam, denunciando principalmente sua hipocrisia. As diretas de Jesus para com os religiosos, os deixavam as vezes furiosos, mas mesmo assim Jesus não hesitava em denunciar os seus pecados.

Os hipócritas, do versículo (5) é uma menção clara aos religiosos “escribas e fariseus” que estavam ali presentes. Eles faziam questão de orar em pé nas sinagogas e em outros lugares públicos, afim de serem vistos pelos homens. Não havia uma piedade sincera, mas um falso pretexto de piedade, que ludibriava e convencia os incautos, mas nunca a Jesus. Jesus afirma, como no caso das esmolas, “em verdade vos digo que já receberam o seu galardão”. Os aplausos e a honra dos homens, eram a recompensa dos hipócritas.

“Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente" (v 6). Jesus não pretendia estabelecer aqui uma regra única para a aplicação da oração; apenas estava enfatizando o princípio moral de que a oração é um momento de intimidade com Deus. Quanto mais solitários estivermos nesse momento, mais capacidade teremos de nos conectar com o Pai Celestial. A oração, não teria os efeitos esperados se não levasse em consideração esse fator tão importante

.

Como a real intenção dos hipócritas, era ser visto pelos homens, suas orações eram pré-aprendidas, vazias, repetitivas e muito extensas (Mc 12.40). Procedendo assim se assemelhavam aos gentios, que realizavam longas e repetitivas orações nos templos pagãos a uma divindade morta. Como a oração dos hipócritas era puramente exterior, não chegava a presença de Deus, e isso corresponderia a mesma coisa.

Deus sabe do que precisamos, antes mesmo de lhe pedirmos (v8), e por isso não há necessidade de uma longa e repetitiva oração.

Ao propor aos seus discípulos a oração do Pai-Nosso, Jesus pretende oferecer-lhes um modelo de oração eficaz, isso é; “objetiva, resumida e concisa”. A oração do Pai-Nosso reúne em si todas essas características, “Portanto, vós orareis assim” (v 9a).

A oração do Pai-Nosso

A oração do pai nosso, é formada por apenas 8 sentenças, isso é, oito ideias principais, que engloba os pontos mais relevantes da fé cristã; a paternidade de Deus, a santidade de Deus, o Reino de Deus, a vontade de Deus, a providência de Deus, o perdão de Deus, e o livramento de Deus.

1ª - Pai nosso, que estás nos céus,

Essa sentença, invoca a ideia da paternidade divina. Para os Judeus, essa ideia não era muito aceita. Para eles era inconcebível o conceito de Deus ter filhos. No entanto, a doutrina da Paternidade Divina será desenvolvida nas páginas no Novo Testamento.

O pai, era a figura principal do lar, era o responsável pela provisão, cuidado e disciplina dos filhos. Da mesma forma, Deus como pai amoroso, disciplina, cuida e provê aos seus filhos tudo aquilo que temos realmente, necessidade. Essa sentença, invoca também a ideia de comunhão, e de segurança espiritual.

2ª - santificado seja o teu nome;

A ideia principal dessa sentença é o enaltecimento do nome Santo de Deus. É uma forma de adoração. É uma preparação para apresentação das petições que serão esboçadas a partir de então. Esta frase carrega também, um conceito de comparação e distinção da infinita santidade de Deus em relação a nossa, que é tão efêmera.

A santidade, é um atributo inerente da natureza de Deus. Ele é o Deus Santo (1 Pe 1.16). Esta distinção deve ficar bem clara no momento em que o adorador estiver diante de Deus.

3ª - Venha o teu reino,

Para muitos interpretes da Bíblia, essa expressão evoca o desejo do agente do Reino, pela manifestação física do Reino de Deus.

Essa manifestação plena do Reino, que foi amplamente anunciada pelos profetas do Antigo Testamento, se dará ao final da grande tribulação, quando Jesus reinará sobre Israel e as noções (Zc 14.9).

Conforme a promessa, a Igreja também reinará com Cristo no milénio, (Ap 20.6; 1.6, 5.10), como reis e sacerdotes (Ap 2.26,27; 2Tm 2.12a). Ao realizar essa oração, o crente estará demostrando seu intenso desejo pela manifestação desse Reino.

4ª - seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu;

A autoridade divina sobre o universo é plena, o “céu e a terra” é uma maneira lógica de descrever a extensão de sua autoridade.

Não é simplesmente uma invocação, mas uma declaração da soberania e do direito divino sobre sua criação. Como criador, é direito seu fazer com que sua vontade seja aceita, tanto no mundo físico, como nomundo espiritual.

Apesar de possuir esse direito e poder para tal, nosso Pai celestial não usa desse direito. Ele espera que sua criatura reconheça a sua soberania, e aceite voluntariamente sua vontade.

Quando oramos usando essas palavras, manifestamos um profundo sentimento de dependência e reconhecimento da soberania divina. Reconhecemos o quão essencial é a manifestação da sua vontade, e estamos declarando que, dependemos totalmente do Senhor. Aceitamos sua vontade, como a melhor opção para nossas vidas, e para todo mundo.

5ª - O pão nosso de cada dia nos dá hoje;

Como um pai amoroso, que cuida de seus filhos, Deus se preocupa em prover as nossas necessidades básicas (Mt 6.30; Lc 12.28). Basta compartilharmos com ele nossas necessidades “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. (1 Pd 5.7).

“O pão de cada dia”, pode referir-se não somente ao alimento, mas a todas as necessidades do nosso cotidiano.

Essa oração é tanto um gesto de dependência, como de confiança na provisão de Deus. Pois tem como foco “o hoje”. A providência de Deus no hoje, é a certeza de que ele também proverá no amanhã. Orar nessas palavras é viver na prática as palavras de Jesus no versículo 34 “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal”.

6ª - E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores;

A questão do perdão, já havia sido abordado por Jesus, e na oração do Pai nosso o tema é novamente inserido, como um lembrete de que, sempre necessitaremos do perdão divino, e que esse perdão estará condicionado ao perdão de nossos devedores “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas” (v 14,15).

Na primeira vez que observei está expressão, achei que havia um erro de tradução, pois aparentemente há uma inversão de valores, “e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, e, em minha mente, sugeri uma melhor tradução “ensina-nos a perdoar os nossos devedores assim o Senhor tem nos perdoado”. Confesso que, até cheguei a orar assim, algumas vezes.

Geralmente somos exortados a tomar Deus como parâmetro para a nossa justiça, mas aqui é o contrário. Mas, ao entender o significado do perdão e o tamanho da nossa responsabilidade quanto a ele (v 14,15), então percebi que não havia nenhum erro na tradução da frase, àquela, era, realmente, a ideia de Deus queria exprimir na oração do Pai-Nosso.

Deus quer que entendamos de uma vez, que, só encontraremos o seu perdão, se também perdoarmos. Essa oração é um lembrete disso, e ao mesmo tempo, um apelo para que Deus nos trate conforme a justiça que exercemos para com o nosso próximo, no que diz respeito ao perdão. Nessa oração pedimos que ele nos perdoa na mesma medida que perdoamos o nosso próximo.

Que tamanho perdão merecemos de Deus? A resposta para essa pergunta é a mais pessoal que eu já conheci, pois, coração é terra que ninguém conhece, exceto o seu possuidor e Deus.

7ª - E não nos conduzas à tentação; mas livra-nos do mal;

A tentação é tudo aquilo que nos instigue ao pecado. Mas, diferentemente do que muitos pensam “Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta”. “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” (Tiago 1:14,15). A tentação possui três agentes principais “a carne, o mundo e Satanás”, estes três agem simultaneamente, com o propósito de nos fazer pecar e nos afastar de Deus. A tentação é possível graças aos sentidos do corpo, “visão, audição, olfato, tato, paladar”. Deus é o único recurso que temos contra a tentação.

A palavra “conduzir”, aparece em algumas versões com o sentido de “induzir”, como se Deus fosse o incentivador da tentação. A verdade é que Deus não compactua com o mal, pois não há nenhuma concórdia entre Deus e qualquer agente das trevas (2 Co 6.14-16). Mas, Deus, pode permitir a tentação dos seus servos, com o intuito de provar seus corações, como no caso do próprio Jesus (Mt 4.1; Lc 4.1-4). Deus, no entanto, nunca permite uma tentação além daquilo que podemos suportar “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” (1 Coríntios 10:13).

Portanto, o sentido da expressão “E não nos conduzas à tentação”, significa simplesmente, “não nos deixar a mercê dela”, ou “sob sua forte influência”. Pois o homem por si, não pode contra as forças do mal. Por isso a oração resume “mas livra-nos do mal”. Somente Deus pode nos livrar do poder do pecado e do diabo.

8ª - porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.

Essa última sentença, é uma exaltação da grandeza e majestade divina. A Deus pertence todas coisas, tanto nos céus, com na terra.

O jejum

Jejum significa abstinência de alimento sólido e líquido (jejum total), por um determinado período de tempo, seja por motivos religiosos ou medicinais.

Outras formas de jejuns, “jejum parcial”, também foi aplicada. Um exemplo disso, é do próprio Jesus, pois que a narrativa diz “E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome” (Mt 4.2). Jesus sentiu fome e não sede. A tentação do diabo foi somente com relação ao pão e não água. Isso pode sugerir uma abstinência apenas de comida, mas não de bebida.

O jejum, era uma prática comum dos tempos bíblicos (Is 58.3; usava-se principalmente, associado a uma situação especial de luto, arrependimento, de humilhação e quebrantamento, com o intuito de atrair a atenção e o favor do Senhor.

Não havia um mandamento específico na lei que obrigava a prática do jejum. Mas, com o tempo, foi tomando forma preceitual em alguns dias específicos de festa (Jl 1.14; Zc 8.19). Era costume dos judeus, também, apregoar certos dias específicos de jejum em prol de causas importantes, geralmente em caráter coletivo (1 Rs 21.9,10; 2 Cr 20.3; Ed 8.21; Jr 36.9; Jl 2.15), ou simplesmente como uma forma de devoção particular, (Dn 9.3; At 27.9).

Os religiosos dos tempos de Jesus, no entanto, não viam o jejum como uma forma de devoção, ou de humilhação diante do Senhor, mas, como uma oportunidade de buscar honras e aplausos dos homens. Por isso Jesus adverte “E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão” (Mateus 6:16).

Os religiosos faziam questão de demostrar que estavam jejuando, “mostravam-se contristados, desfigurando o rosto”. Isso é, faziam de tudo para chamar a atenção.

Por se tratar de uma prática importante na devoção particular, e Jesus, preocupado com seu resultado diante de Deus, recomenda: “Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça, e lava o teu rosto, para não pareceres aos homens que jejuas, mas a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente” (Mateus 6:17,18).

O jejum é um ato de devoção de caráter particular. Portanto, tudo deve ser mantido em total segredo. Não é necessário que todos saibam que estamos jejuando, e nem porque estamos jejuando. É uma questão particular de interesse apenas meu e de Deus, ou vice-versa.

Ainda hoje existe muita confusão em torno do jejum. São questões que gira em torno de “como, onde, quando e porque jejuar”. O nosso proposito nesse comentário não é desenvolver uma teologia propriamente do jejum, pois para isso precisaríamos de um pouco mais de espaço e tempo.

Sempre ensino que a prática do jejum deve ser espontânea e sempre associado a oração. Não é uma barganha com Deus, isso é; eu jejuo e Deus me dá o que preciso, e nem um ato que me tornará merecedor de algo, “eu me sacrifiquei muito, portanto, mereço isso ou aquilo”.

O jejum, deve ser encarado como uma parte da devoção do crente, que reforça a ideia de humilhação e quebrantamento diante do Senhor. O poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza (2 Co 12.9).


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